RODOVIÁRIA VELHA
“RODOVIÁRIA VELHA” (Ou Antigo
Terminal Rodoviário Aloísio Souto Pinto)
Um aviso: O título deste texto é
passível de ambiguidade. Por “rodoviária velha”, muitos leitores, sobretudo os mais
jovens, imaginarão tratar-se do terminal rodoviário João Tude de Melo, vizinho
ao parque Euclides Dourado, que de fato também merece a alcunha (embora passe
por reformas), mas estarão enganados.
A “rodoviária velha” em questão se refere ao prédio encravado no coração da chamada (pelo menos por enquanto) Esplanada Cultural Guadalajara. No passado, o edifício serviu de terminal rodoviário.
***
Durante seu mandato, o ex-prefeito Silvino Andrade transformou em Esplanada Cultural a Praça Guadalajara (assim batizada em virtude da Copa de 1970, graças ao projeto do radialista Antônio Edson).
À época, havia um amontoado de chalés toscos por lá – usados como banheiros e motéis extemporâneos, uma espécie de favela alpina – e que foram retirados. O piso de cimento grosso, onde deixei muitas amostras de DNA nas grotescas peladas que ali jogávamos ao fugir dos colégios no seu entorno, foi substituído por pedras supostamente portuguesas inseridas em quadrados de bordas supostamente marmóreas. As palmeiras ganharam ainda mais altivez do lado arquibancado da esplanada. Do outro lado, platibandas de metal baixas e arredondadas servem de banco provisório para metaleiros, de semiencosto para namoro, de proteção contra quedas – ou não servem para nada.
A “rodoviária velha” em questão se refere ao prédio encravado no coração da chamada (pelo menos por enquanto) Esplanada Cultural Guadalajara. No passado, o edifício serviu de terminal rodoviário.
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Durante seu mandato, o ex-prefeito Silvino Andrade transformou em Esplanada Cultural a Praça Guadalajara (assim batizada em virtude da Copa de 1970, graças ao projeto do radialista Antônio Edson).
À época, havia um amontoado de chalés toscos por lá – usados como banheiros e motéis extemporâneos, uma espécie de favela alpina – e que foram retirados. O piso de cimento grosso, onde deixei muitas amostras de DNA nas grotescas peladas que ali jogávamos ao fugir dos colégios no seu entorno, foi substituído por pedras supostamente portuguesas inseridas em quadrados de bordas supostamente marmóreas. As palmeiras ganharam ainda mais altivez do lado arquibancado da esplanada. Do outro lado, platibandas de metal baixas e arredondadas servem de banco provisório para metaleiros, de semiencosto para namoro, de proteção contra quedas – ou não servem para nada.
No meio daquela grande reforma
urbano-paisagística, surgiu um óbice: tinha no meio do caminho um hotel, tinha
um hotel no meio do caminho. Impávido em sua curvatura bicolor, como uma
espécie qualquer de jubarte encalhada, o prédio impedia o avanço daquele antro
de musicalidade, cultura e eventos mil. A construção não cedia lugar à
esplanada. Era o Hotel Shalom.
“Shalom” (שָׁלוֹם, em hebraico) quer dizer paz.
É uma dessas palavras alienígenas que chegam ao idioma português o enchendo de
frescuras exotéricas, da mesma estirpe de namastês e déjavùs. Etimologicamente,
a palavra é inadequada à situação: naqueles idos, o que menos houve entre
prefeitura e proprietários do hotel foi paz. Havia foi uma pugna, uma guerra
cheia de lances e mistérios. Com o lapso de tempo e versões várias, ninguém
mais sabe o que aconteceu naquelas comunicações, mas a arrogância executiva e a
arrogância empresarial se bateram e se anularam: não houve saída. Até hoje a “rodoviária
velha”, como um sorriso, se vista de cima, ri, sarcástica, da cara de toda a
população.
***
Foi na década de 1960 que surgiu
o primeiro terminal rodoviário de Garanhuns. Até aqueles anos, era na avenida Santo
Antônio – de modo mambembe – que as pessoas tomavam os ônibus para as cidades
vizinhas e a capital. Desde os anos 1930, o embarque e desembarque de
passageiro eram feitos na frente do Cine Glória e no Edifício Tude, respectivamente
atuais Balangandã e G. Araújo. Carecendo de um espaço para chamar de seu, os
passageiros ficaram felizes quando surgiu uma rodoviária nos moldes modernos.
Com a condescendência da câmara
de vereadores, o prefeito Amílcar da Mota Valença doou o terreno onde viria a
ser construído o prédio. Afora isso, nenhuma outra participação pública está
registrada na edificação do recinto. O prédio foi construído a mando de James Thorp,
à época presidente do Santa Cruz e
proprietária da White Martins (a empresa de oxigênio): essa origem
privada dificulta até hoje a completude do projeto idealizado pelo ex-prefeito
Silvino.
***
No início de uma noite de sábado
de dezembro último, após um lanche na Kitnet, visitei o local. Diferente do que
acontece nas sextas-feiras, onde o fluxo dos bares, os espetinhos e as “cervas”
dão vida ao local, o ambiente na noite saturnina na “rodoviária velha” e no seu
entorno é engolfado pela escuridão, pelo ermo e pelo abandono. Perambulei pelas
plataformas de embarque, disformes e manchadas por décadas de variados óleos combustíveis,
enquanto observava a série de pequenas lojas de prestadores de serviço que
agora ocupam os boxes de antigas empresas de transporte. Noca Chaveiro, Lava
Jato Papa-Léguas, Neno Chaveiro, Moto Clube, Vip Turismo, entre outros. Do lado oposto ao prédio, vizinho ao Espetinho
do Barrichelo, ainda há a loja, com sua fachada verde e branca, da Garanhuns Oxigênio,
representante da White Martins, ligando o presente ao passado.
Como dito, mesmo com a Kitnet e o
Dona Antônia funcionando no limite oriental da esplanada, já próximos ao Colégio
Estadual, não havia praticamente ninguém por ali, exceto alguns carros que
passavam em baixa velocidade. O trecho parece uma espécie de buraco negro naquela região
do centro de Garanhuns. Em virtude disso, é muito usado como sanitário informal
e afins por apressadinhos. Depois da análise comercial, o nível arquitetônico
foi minha segunda alternativa: vergalhões enferrujados apareciam em um ponto ou
outro, portas de fechaduras frouxas (algo bastante estranho levando que aquela
é a maior concentração de chaveiros por metro quadrado do interior de Pernambuco),
pintura descascada, reboco estambocado. Ao final da inspeção, encontrei, já na
Guadalajara propriamente dita, um catador de papelão, seu Biu. Ele tinha a carroça
de burro praticamente lotada. Me confidenciou que ainda naquela noite iria banhar
os papelões de água para que na hora da pesagem fosse beneficiado com um peso
maior do que o normal.
***
Havia um poema na fachada lateral
do hotel. O título era: “Ser Silva”. A autora: Talita Kumi. Como se sabe, no
relato bíblico, especificamente no evangelho de Marcos, capítulo 5, narra-se a
história da filha de Jairo. Uma menina a quem Jesus ressuscita. Ao
fazer o milagre, o Cristo segura a mão da jovem e diz: “Talita Cumi” (quer
dizer: “Donzela, levanta-te”, em aramaico). Os pais de Talita batizaram a
filha, que mais tarde viria a ser poeta, com a transliteração pura e simples da
frase bíblica.
Eis o insight: “Ressurreição”. É
disso que o espaço precisa, diferente daqueles que acreditam que o melhor é
dinamitar o prédio para que os shows na Guadalajara sejam ainda mais grandiosos
(o que, diga-se, é contraproducente, pois descaracteriza a essência de festival,
este quanto mais pulverizado melhor). Uma ressurreição poética e cultural seria o destino
mais apropriado para o espaço. Algo que não seria necessariamente original, na
época em que ainda funcionava como rodoviária (1960-70), o prédio já servira de
ponto de encontro para os jovens garanhuenses que tinham ali a oportunidade de
ouvir boas músicas e arriscarem-se em suas próprias composições e
interpretações. Seria apenas um revival.
E otimizaria um corredor que poderia ser gigantesco no aspecto cultural: vindo
desde o Diocesano, passando pelo Mosteiro de São Bento, pelo Centro Cultural, pela
própria Guadalajara, o espaço apreciado nesse texto e, com boa vontade,
chegando ao parque Euclides Dourado.
***
A “rodoviária velha” (como dito
acima, um cetáceo encalhado no coração cultural da cidade) obviamente não
presta.
Eu sou Mário. E esta é a minha cidade.
BIBLIOTECA DO PARQUE
Este espaço não seria reservado à Biblioteca
Pública Municipal Luiz Brasil, pois guardo dela as piores lembranças possíveis.
Como da vez que um livro de Augusto dos Anjos se despetalou, página por página,
na minha mão. Ou quando abri o livro do Augusto Frederico Schimdt e de dentro
dele saltaram espécies julgadas extintas dos mais perniciosos vírus da primeira
metade do século XX.
Parodiando Bob Dylan, não eram as respostas
que estavam no vento insalubre do local, eram bactérias.
Parodiando Bradock (não o personagem do
Chuck Norris, mas o amigo do jogador Romário), nem se eu tivesse dois pulmões
teria escapado ileso daquela fungada involuntária no livro do hoje esquecido poeta
carioca.
***
Feitas as ressalvas acima, o que me levou
a visitar a biblioteca do parque naquela quinta-feira foi a
nota solta pela Secretaria de Comunicação Social da Prefeitura de que o prédio
havia passado por uma criteriosa reforma que envolvera “limpeza do telhado,
colocação de telas de proteção para evitar ninhos de pombo...”
A tal nota foi reproduzida à exaustão
pelo pelos órgãos noticiosos da cidade. E este blog não poderia se furtar ao trabalho
de investigar in loco tais aprimoramentos.
Ao passar por baixo de um dos dois jambeiros
que antecedem o prédio da biblioteca, senti um déjavù.
Muitas vezes, no meu tempo de estudante
pobre, quando fazia uso daquele espaço – o que quase tirou minha saúde, como
dito anteriormente –, eu também fizera uso dos jambos ora pendidos ora dispostos pelo
chão cimentado à frente do prédio.
(O que acabo de dizer é uma falácia: “Estudante
pobre”, pois parece que não sou mais estudante e nem pobre: o que é um erro em
ambos os casos.)
A reforma tão propalada deve ter sido
feita exclusivamente no telhado, porque no minúsculo hall de entrada não havia
em essência mudança nenhuma, exceto uma nova disposição dos móveis.
Por uma abertura que lembra as cantinas
escolares, a simpática bibliotecária palitava os dentes e se dispôs a me
ajudar, se necessário.
Havia no espaço um único jovem, debruçado
sobre um volume de geografia, identificado pelo mapa da URSS, ao seu lado um
bloco de anotação. O garoto vestia uma camisa vermelha de uma das sapatarias do
Centro.
Aproximei-me e puxei conversa, baixinho,
mesmo sem justificativa, porque não havia nenhum outro usuário no recinto. “O
grande problema”, disse Uéscley Pereira Dias (sim, chequei a grafia), “é que
livro didático é caro. E estes estão totalmente desatualizados. O presidente do
Brasil ainda é Sarney e o governador é Arraes.”
Uéscley depois me esclareceria que estava
ali no seu horário de almoço. Como não tinha dinheiro e nem tempo, obrigava-se
a fazer uso daquele expediente. “Vou prestar Enem e UPE para Medicina”, ele me
disse, como se pedisse desculpa. “Tenho que correr atrás. Mas este ano eu não
vou tentar como cotista não. É pior.” Ele havia terminado ano passado seu
ensino médio numa escola pública da periferia, prestou seu primeiro vestibular
em 2012, mas não obteve sucesso. Se depender da biblioteca do parque...
A primeira biblioteca realmente pública
do Ocidente surgiu na Itália nos idos de 1604, La Angelica, em Roma, depois que
Angelo Rocca havia se disposto à organização do acervo livresco do convento de
Santo Agostinho. Por essa época, na Inglaterra, um ex-estudante
de Oxford, Thomas Bodley, resolveu fundar com esforços próprios a biblioteca da
instituição: fora ele quem lançara as bases para o que hoje chamamos de
Depósito Legal.
Por falar nisso, no Brasil, nossa primeira
biblioteca pública chegou com a família real, por volta de 1808, e se
estabeleceu especificamente em 1811. Embora o prédio e os alfarrábios tenham surgido,
parece que a cultura livresca não foi adequadamente adotada por nós. A ideia de
biblioteca é de um monte de livro acumulado.
Levantamo-nos da mesa de estudo, um tampo
cinza hexagonal, cercado por seis cadeiras de espaldares azuis, sob ela o
cheiro de chulé de frequentadores anteriores e sobre o tampo um leve fedor de
axilas.
Ao entrarmos em um dos corredores, Uéscley
disse: “Vou ver se acho um livro de biologia mais jovem que eu.” Tarefa difícil,
constatei. Há poucos volumes deste século, salvo engano. Uma dessas exceções são livros novíssimos
do criador da seita conhecida como Cientologia – seguida por estrelas de
Hollywood, como Tom Cruise e John Travolta. Existe uma dezena de coloridos
livros do autor L. Ron Hubbard.
Observei, por outro lado, na letra K, em
literatura estrangeira: havia apenas um surrado livro de Kafka, A metamorfose. Dos
próceres da atualidade (Cormac, Coetzee, Roth), nem sinal. Na hemeroteca, exemplares
de uma revista sensacionalista (“Incrível?”), de 1994; havia também revistas
Continente, o que me animou, até vislumbrar as datas: números de 2003, 2005. Observei
as enciclopédias; por suas lombadas, percebi: eram as mesmas de meu tempo de
menino – Lambada fazendo sucesso na Europa, Alemanha Oriental ruindo, Steffi Graf jogando
tênis...
“Por que não usa o acervo da sua
ex-escola?”, pergunto. Uéscley explica que o acesso à escola é restrito a alunos
matriculados, e levar livros para casa é um sonho irrealizável por lá. “Acham
que vou roubar”, ironizou o pré-vestibulando, “mal sabem os bibliotecários que
se eu fosse presidiário teria acesso ao livro que quisesse, totalmente de graça,
num ambiente silencioso e protegido por segurança 24 horas por dia, e bastaria
fazer uma resenha mensal que teria boa parte de minha pena reduzida. Num contexto
desses, quem vai roubar livro?” Ele havia feito recentemente uma redação sobre
o sistema carcerário no País daí a segurança em dissertar sobre o assunto.
(A biblioteca Luiz Brasil oferece a
possibilidade de empréstimo mediante um cadastro simples, mas a obsolescência
de boa parte do acervo desestimula esta opção.)
O recinto alternou, desde seu funcionamento
naquele local, momentos de popularidade e ostracismo. Em anos anteriores, criou
o projeto “Eu conto” onde atores amadores vivenciavam narrativas curtas de
escritores famosos do Brasil – mormente Monteiro Lobato –, e chegou-se a pensar
num ciclo de palestras com escritores da cidade que falariam para um público
infanto-juvenil acerca de suas obras ali no espaço da biblioteca. O projeto não
foi adiante, talvez pelo fato de simplesmente não haver por parte da prefeitura
a boa-vontade de adquirir os livros dos autores da cidades.
O estudante Uéscley sacou um tubo de
biscoitos recheados Traquinas de morango. A atendente nos convidou com o olhar a
sair do recinto enquanto comíamos. “Como não tenho muito tempo, se for almoçar,
perco a chance de estudar, tenho que comer por aqui.” Agora, não infringindo
nenhuma lei, nos sentamos num dos quatro bancos de madeira próximos à entrada.
O cenário que nos envolvia era dos mais interessantes.
Se a biblioteca perdeu o compasso do
tempo no que diz respeito ao seu acervo, e não serve para o estudo da geografia
e da biologia na teoria, na prática, ali é o local perfeito.
Pelos arredores, moderníssimos casais de
pré-adolescentes usam as paredes e suas reentrâncias (das paredes, é claro)
como cama vertical para negociar carícias das mais exacerbadas. Meninos e meninas matam aulas nos colégios
das redondezas – Henrique Dias, Dom Juvêncio Brito, IPH, São José – para
lustrarem as instalações do prédio central daquele parque. É, a biblioteca não
pode ser fechada por falta de uso, sobretudo o externo.
Após ser informado sobre o horário, Uéscley
mostra um ar de preocupação. São apenas dez minutos para chegar sem nenhum tipo
de atraso até o centro da cidade e à loja onde trabalha. O menino magro e
cabeçudo dirige-se à saída do parque Euclides Dourado, perdendo-se por entre os
eucaliptos ainda não arrancados.
Volto-me para a biblioteca do parque.
Poderia, graças à informática e ao atendimento que me pareceu satisfatório, ser
um excelente ponto de cultura, sobretudo nos fins de semana: mas obsoleta e defasada como ainda está, a
biblioteca Luiz Brasil não presta.
De longe, Uéscley Pereira Dias parece um
pêndulo invertido, equilibrando a custo a cabeçorra ingênua onde, além de tantos
sonhos, começa a guardar, com um invejável esforço, o conhecimento que no futuro
(assim eu creio, assim eu espero) salvará muitas vidas.
Eu sou Mário. E está é minha cidade.
CAMPINHO DA LIBERDADE
O
fato de o campo ser de barro e todo o seu entorno não contar com
pavimentação não me desanimou. A garoa oblíqua e persistente também não era
motivo de lástima. Afinal, fora em campos de lama e com chuvas constantes, lá
na Grã-Bretanha, que viera à luz o mais popular de todos os esportes: o
futebol.
A
primeira providência que tomei ao chegar ao local foi fazer a aferição das
medidas do Campinho da Liberdade, o Raposão, palco das apresentações do ínclito Internacional. Como não dispunha de trena, fiz a medição com a ajuda de meus
passos, trocando cada um deles por aproximadamente um metro, cheguei à conclusão de
que o tamanho se assemelha às medidas máximas exigidas pela FIFA em partidas
internacionais, a saber: 75m de largura por 110m de comprimento.
Como
a garoa inicial ameaçava tornar-se chuva, refugiei-me embaixo de uma árvore
na ribanceira por trás de um dos gols (aquele voltado ao bairro de Heliópolis).
Sentado em um dos dois bancos artesanais de concreto, assiste, numa espécie
improvisada de camarote, à partida principal daquela manhã (sim, houvera antes a
partida entre os aspirantes). Dois dos mais famosos times de pelada da cidade
se digladiavam: Internacional da Liberdade x Cinco Estrelas do Indiano. Quem me
esclareceu a identidade das equipes foi seu Cícero, morador da Liberdade desde a
década de 1980.
Os primeiros movimentos dos
jogadores mostraram a pouca capacidade técnica e a total ausência de tática
entre as duas equipes. Mas um ponto de interesse, e que justificaria até um
texto exclusivo, era o embate entre um atacante baixinho de pernas tortas (que não
se sabe por que usava a camisa 3) e um zagueiro gordinho (a camisa deste deixava
ver parte do bucho e o umbigo.) Também analisei os apetrechos esportivos dos
atletas. Tal observação apenas corroborou uma das verdades básicas do futebol
de várzea: quanto mais apetrechado é o jogador, menor é seu futebol. Os
reservas de ambas as equipes ficavam à lateral do campo, à esquerda do meu
ponto de vista, ou seja, o lado oposto ao Cemitério de São Cristóvão, que ocupa
a quadra abaixo do campinho.
O frio persiste, mesmo assim compro um picolé de coco de um carrinho Iguapó
(concorrente agressivo do picolé Caicó). Ofereço para seu Cícero uma daquelas guloseimas.
De picolé às mãos, continuamos a apreciar o jogo. Pergunto por que o time do
bairro se chama Internacional e sou esclarecido de que o Internacional (de Porto Alegre)
na década de 1970 foi uma das potências do Brasil, ganhando com Falcão,
Figueiroa e Carpegiani, nada menos do que três campeonatos brasileiros: o que
o nacionalizou na questão torcida. Como já havia do outro lado da cidade o Flamengo
da Matança, aquele homônimo gaúcho foi homenageado.
Os
picolés são consumidos enquanto vibramos com a pressão do time da casa contra o
visitante. A total falta de disposição tática (como já dito acima) colocava
praticamente vinte e um jogadores na área do Cinco Estrelas, mas o goleiro (também
barrigudo como o zagueiro) se superava numa série de defesas arrojadas, que,
não obstante o campo fofo por causa da chuva, já lhe raspara o joelho esquerdo
do qual filamentos de sangue escorriam manchando o meião supostamente branco.
A ideia de sangue sendo derramado
me fez intercalar na conversa uma pergunta a seu Cícero sobre algo alheio ao futebol.
Os famigerados canibais da Liberdade. “Nada mudou por aqui depois deles” – seu Cícero interrompe a si mesmo (“Olha o gol, olha o gol, olha o gol.” Alarme falso: goleiro
espalma, bola bate na trave, vai a escanteio). “Era um povo estranho que veio
morar aqui de uns tempos pra cá, não eram como nós, moradores antigos. Então não
abalou a comunidade. Era um povo doido, que fez uns negócios doidos. E pronto.
Um povo sem Deus no coração.”
Garanhuns, na verdade, sempre funcionou como uma espécie de para-raios de
tragédias. Para ficarmos com apenas três: há a Hecatombe de 1917, a morte do
Bispo Dom Expedito pelo padre Hosana e, finalmente, o acima aludido caso dos
canibais. Este último chegando a dar fama inédita não só a Garanhuns mas especificamente
ao bairro. Fama que extrapolou até mesmo os limites nacionais chegando à CNN,
entre outros órgãos da imprensa internacional.
Nesse aspecto, é importante também
citar a referência que Garanhuns recebe do maior escritor brasileiro. Assim
escreveu, em Quincas Borba, Machado de Assis: “Ao café, pegou
novamente na folha, para ler outras coisas, nomeações do governo, um
assassinato em Garanhuns, meteorologia, até que a vista desastrada foi cair na
notícia, e leu-a então com pausa.” Mais
tarde, nosso maior poeta, Drummond, sentenciou: “Do fundo de Pernambuco, o pai mandou-lhe um telegrama...
releu a data: 28 de setembro. Puxa vida, telegrama com a nota de urgente levar
cinco dias de Garanhuns a Belo Horizonte!” Violência e atraso, rótulos dados pelos grandes literatos, e que aqueles atletas ali embaixo, no campo, corroboravam, mas estamos deixando isso para trás.
Com o final do primeiro tempo,
desci a ribanceira até o campo de jogo. Muito antes dos tais estádios padrão
FIFA, sem alambrado, fosso ou muro, o campinho da Liberdade já dava acesso livre
aos torcedores, alguns assistem às partidas ladeando a faixa lateral do campo.
Embora seja de barro, como todas as várzeas da cidade, aquele retângulo
gigantesco guarda uma peculiaridade: o barro não chega a ser rochoso nem arenoso
fica numa escala neutra quase fofa, o que permite que a bola corra sem
necessariamente quicar. Além disso, a integridade física dos atletas também é
protegida, já que com menos impacto os meniscos não sofrem tantas rupturas com
em outras peladas. E sobretudo: o Raposão é um campo plano!
Embora atraindo tragédia, Garanhuns nunca
foi atraída pelo futebol, o que é de se estranhar. Primeiro, pela
quantidade de campinhos que nela existem; segundo, porque o futebol começou cedo
por aqui. Já nas primeiras décadas do século XX foi formado um dos principais clubes da cidade,
a AGA (Associação Garanhuense de Atletismo), fundada em 1930. A equipe teve seu auge em tempos relativamente recentes,
chegando a ostentar o título simbólico de Campeão do Interior, ficando em
quarto lugar no campeonato de 2003. O estádio Gérson Emery se tornara um
caldeirão que impunha medo até mesmo aos chamados grandes da capital. Em 1950,
surgiria, aos sete de setembro, o principal antípoda da AGA, o Sete de
Setembro Esporte Clube. Logo, o Guará iria ser a grande ameaça da Lavandeira. O Sete também
teve seus momentos de glória. Mandado jogos no estádio Marco Maciel, o Gigante
do Agreste, chegou a pôr medo nos grandes. Infelizmente, hoje a AGA está num
longo recesso (desde 2006) e o Sete luta para ascender à elite do futebol pernambucano, em
2014.
De volta ao meu assento, não numerado, mas
privilegiado, por trás do gol, assisto às ações ofensivas do Internacional
do outro lado do campo. O goleiro da equipe liberdadense, que mal trabalhara no
primeiro tempo, também não trabalha na segunda etapa. Dá tempo, inclusive, de
sair do campo, com a bola rolando, ir até um mototáxi que recém-chegara ao
local, receber um dinheiro, colocar as cédulas no cós do calção de goleiro e voltar
ao campo. Não tinha medo de perder o pagamento, pois não haveria ataque àquela
meta durante o resto da partida.
“É muito bom ter esses jogos aqui,
movimenta essas ruas nos dias de domingo”, diz seu Cícero. Realmente, agora que um sol tímido começa a surgir, as pessoas parecem mais animadas e
começam a ocupar alguns bares nas proximidades do jogo e sons automotivos
começam a funcionar. “Se tu fizer o teste, vai perceber que esse é o bairro
mais animado de Garanhuns nos domingos.” Em pesquisas posteriores, constatei
essa verdade. Exceto a região da Duque de Caxias, em virtude da feira livre, o
que lhe tira da competição, são aquelas ruas ao redor do Campinho da Liberdade
que guardam mais euforia em toda a cidade, de resto, morta.
Como este blog não se propõe a
sensacionalismos baratos, esquivo-me de perguntar sobre os efeitos no bairro pós-canibalismo,
desvalorização imobiliária entre eles. Pergunto se não há confusão, brigas,
pois jogos tão disputados, torcidas tão próximas, juízes comprados... Seu
Cícero garante que o policial militar que organiza o campinho não deixa que
nada disso ocorra, e verdade seja dita: durante toda aquela manhã não houve nem
um registro de desordem naquela arena.
O juiz era um caso à parte,
apitava a partida com os trejeitos da Internacional Board (órgão responsável
pela arbitragem na FIFA), porém estava descalço, de bermuda jeans e, completando
o look, uma camisa do Corinthians (mais um caso de juiz ladrão). O fato é que o
jogo, apesar da pressão do Internacional, acabou em zero a zero. Num dos
últimos lances, o zagueiro gorducho de umbigo de fora deu uma chapoletada no driblador
da camisa 3, as pernas tortas, à la Garrincha, paradoxalmente quase se
endireitaram. Aprovei a truculência do zagueiro barrigudo.
Os jogadores se cumprimentaram no centro
do Raposão ao término da peleja, enquanto eu dava as costas ao palco futebolístico.
Repositório de lazer, diversão, entretenimento e esporte para aquela parte tão
famosa e ainda assim esquecida da cidade, aquele campinho, em todos os sentidos, presta!
Eu sou Mário. E esta é a minha cidade.
NENÉM DA TRIPA
Os judeus, você sabe, viam o porco como um animal impuro. Imaginemos o escândalo para eles: comer as tripas de um porco – repositório natural de excrescências. Bom, não sou judeu. E gosto de tripa assada.
Quando cheguei ao recinto, as cadeiras de plástico vermelhas de uma cervejaria ainda estavam empilhadas. Tirei uma delas e me sentei: pedi uma porção de tripas, a primeira depois de muito tempo. Eu iria esperar de dez a quinze minutos e pagaria por aquilo doze reais. Pensei em pedir um guaraná de acompanhamento.
“Já teve uma época em que praticamente só se pedia isso e Pitú, mas hoje os pedidos variam muito”, disse Neném, a proprietária. “O pessoal hoje pede mais empada e ruffles, para tomar com Pitú-cola. Uma vergonha.” Desisti do meu guaraná.
Naquele fim de tarde de sexta-feira, o pequeno bar (que, apesar da puxada invadindo a calçada, lembra uma garagem) estava se preparando para receber sua noite de maior movimento. É comum o estabelecimento ficar aberto até as duas da madrugada.
“Parece que a macheza se acabou”, continuou Neném, passando um pano úmido sobre o tampo da mesa, “cansei de ver gente chegando aqui com duas mulheres no carro. Mas, hoje, só chega boyzinho de camiseta apertada com um passarinho bordado no peito para encher a cara com Pitú-cola, tirar foto e botar na internet.”
Neném da Tripa, o bar, fica em uma artéria lateral à avenida Duque de Caxias. Em anos recentes, outro bar ("do arrumadinho") tentou fazer concorrência desleal. Foi montado quatro casas antes: é favor não confundi-los. Há quem diga que a proprietária já foi mais expansiva, alegre, porém depois da concorrência e de arruaceiros, que lhe deixaram indisposta com os vizinhos, seu semblante se tornou mais fechado. Na hora do grande movimento, não é ela quem atende os clientes, limita-se a cozinhar e servir de detrás do balcão.
“Já foi bem melhor esse negócio, mas parece que tudo está meio sem graça ultimamente”, pontua a empresária. Perguntada sobre o processo de fritura dos intestinos suínos, Neném toma uma postura professoral: “Eu uso sal e limão para lavá-las até que fiquem descoradas, depois de cortadas em pequenos pedaços, são aferventadas por duas vezes com um pouco de bicarbonato. Só, então, vão pra fritura. É preciso muito cuidado nesse aspecto também. Se não a tripa fica queimada ou crua.”
Eu acrescentaria: não tentem fazer isso em casa, além do risco possível da queimadura no dorso da mão, há o cheiro, que impregna qualquer ambiente e dura dias até desaparecer. As mãos e o bar de Neném são provas disso.
Não há consenso sobre a chegada das tripas ao Brasil. Pegando carona no folclore colonial, há quem diga que os restos suínos eram doados aos escravos, e estes, por sua vez, criaram toda uma gama culinária a partir daí: feijoadas, torresmos, tripas assadas. Porém, qualquer estudo sério descarta essa hipótese.
Carlos Augusto Didati, especialista em assuntos culturais do Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, defende que essa visão romanceada de nossa culinária já caducou. Os escravos eram uma mercadoria de valor alto no Brasil-colônia, não tinha como alimentá-los mal, pois era expô-los a doenças e até à morte. Os escravos eram alimentados três vezes ao dia, no mínimo: às 8h almoçavam, às 13h jantavam e por volta das 20h ceavam. Em tudo isso tinham uma nutrição baseada em carboidratos e com poucas proteínas, além de muita laranja para evitar o escorbuto.
O mais provável é que as tripas assadas tenham chegado já com os primeiros colonizadores portugueses e criado raízes nas mesas nordestinas. São fartos os registros das freguesias pernambucanas que falam em “fressura de boi e molhos de tripas.”
As origens europeias do prato não combinam com as origens dos produtos usados por Neném. Suas tripas são compradas na CEAGA, vêm do matadouro de Canhotinho, pois, diz a empresária, que aqui as fateiras não têm o mesmo zelo que as da cidade vizinha. “Nem no escaldar, nem na hora da viração”, a viração consiste em enfiar uma vara retilínea pelo interior da tripa pra tirar delas os resquícios fecais. “É engraçado ser conhecida como Neném da tripa. Às vezes as pessoas vêm aqui só pra me ver.”
Com o tempo, o patamar do prato também mudou. Hoje tido como petisco de cachaceiro, já foi cantado em verso e prosa naquilo que de melhor produziu a literatura mundial e portuguesa. Na Megera Domada (ato IV, cena III), de Shakespeare, quando Catarina fica, por castigo de Petruchio, dois dias sem comer, o criado de Petruchio pergunta: “E que direis de tripas gordas muito bem assadas?” E Catarina responde: “Oh! Gosto muito, meu bondoso Grúmio.” Já o Álvaro de Campos, famoso heterônimo de Fernando Pessoa, escreveu: “Mas, se eu pedi amor, por que é que me trouxeram dobrada (tripa) à moda do Porto fria?”
Neném diz que chega a vender uma arrouba de tripas num dia de muito movimento (como aquela sexta se apresentava, pois durante nossa conversa, comprovando inclusive o que me dissera antes, duas mesas foram ocupadas por marmanjos bombados que se autonamoravam e mexiam em seus galaxys e iphones).
As iguarias são acompanhadas de farinha, sal e limão. O prato que degustei, com uma lapada de Pitú, era perfeito: não era a tripa-chiclete, nem a tripa-bolha, era uma tripa crocante que estralava quando do atrito com os dentes. A fama citadina do estabelecimento se justificava. Aquela tripa presta!
De onde estava sentado, um dos clientes recentes, depois de pedir sua porção de tripas, perguntou (os reais temores de Neném se concretizavam): “Vocês têm Pitú-cola?” A proprietária não se deu ao trabalho de sequer respondê-lo. De fato, aquilo é uma vergonha.
Eu sou Mario. E esta é minha cidade.




