A “rodoviária velha” em questão se refere ao prédio encravado no coração da chamada (pelo menos por enquanto) Esplanada Cultural Guadalajara. No passado, o edifício serviu de terminal rodoviário.
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Durante seu mandato, o ex-prefeito Silvino Andrade transformou em Esplanada Cultural a Praça Guadalajara (assim batizada em virtude da Copa de 1970, graças ao projeto do radialista Antônio Edson).
À época, havia um amontoado de chalés toscos por lá – usados como banheiros e motéis extemporâneos, uma espécie de favela alpina – e que foram retirados. O piso de cimento grosso, onde deixei muitas amostras de DNA nas grotescas peladas que ali jogávamos ao fugir dos colégios no seu entorno, foi substituído por pedras supostamente portuguesas inseridas em quadrados de bordas supostamente marmóreas. As palmeiras ganharam ainda mais altivez do lado arquibancado da esplanada. Do outro lado, platibandas de metal baixas e arredondadas servem de banco provisório para metaleiros, de semiencosto para namoro, de proteção contra quedas – ou não servem para nada.
No meio daquela grande reforma
urbano-paisagística, surgiu um óbice: tinha no meio do caminho um hotel, tinha
um hotel no meio do caminho. Impávido em sua curvatura bicolor, como uma
espécie qualquer de jubarte encalhada, o prédio impedia o avanço daquele antro
de musicalidade, cultura e eventos mil. A construção não cedia lugar à
esplanada. Era o Hotel Shalom.
“Shalom” (שָׁלוֹם, em hebraico) quer dizer paz.
É uma dessas palavras alienígenas que chegam ao idioma português o enchendo de
frescuras exotéricas, da mesma estirpe de namastês e déjavùs. Etimologicamente,
a palavra é inadequada à situação: naqueles idos, o que menos houve entre
prefeitura e proprietários do hotel foi paz. Havia foi uma pugna, uma guerra
cheia de lances e mistérios. Com o lapso de tempo e versões várias, ninguém
mais sabe o que aconteceu naquelas comunicações, mas a arrogância executiva e a
arrogância empresarial se bateram e se anularam: não houve saída. Até hoje a “rodoviária
velha”, como um sorriso, se vista de cima, ri, sarcástica, da cara de toda a
população.
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Foi na década de 1960 que surgiu
o primeiro terminal rodoviário de Garanhuns. Até aqueles anos, era na avenida Santo
Antônio – de modo mambembe – que as pessoas tomavam os ônibus para as cidades
vizinhas e a capital. Desde os anos 1930, o embarque e desembarque de
passageiro eram feitos na frente do Cine Glória e no Edifício Tude, respectivamente
atuais Balangandã e G. Araújo. Carecendo de um espaço para chamar de seu, os
passageiros ficaram felizes quando surgiu uma rodoviária nos moldes modernos.
Com a condescendência da câmara
de vereadores, o prefeito Amílcar da Mota Valença doou o terreno onde viria a
ser construído o prédio. Afora isso, nenhuma outra participação pública está
registrada na edificação do recinto. O prédio foi construído a mando de James Thorp,
à época presidente do Santa Cruz e
proprietária da White Martins (a empresa de oxigênio): essa origem
privada dificulta até hoje a completude do projeto idealizado pelo ex-prefeito
Silvino.
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No início de uma noite de sábado
de dezembro último, após um lanche na Kitnet, visitei o local. Diferente do que
acontece nas sextas-feiras, onde o fluxo dos bares, os espetinhos e as “cervas”
dão vida ao local, o ambiente na noite saturnina na “rodoviária velha” e no seu
entorno é engolfado pela escuridão, pelo ermo e pelo abandono. Perambulei pelas
plataformas de embarque, disformes e manchadas por décadas de variados óleos combustíveis,
enquanto observava a série de pequenas lojas de prestadores de serviço que
agora ocupam os boxes de antigas empresas de transporte. Noca Chaveiro, Lava
Jato Papa-Léguas, Neno Chaveiro, Moto Clube, Vip Turismo, entre outros. Do lado oposto ao prédio, vizinho ao Espetinho
do Barrichelo, ainda há a loja, com sua fachada verde e branca, da Garanhuns Oxigênio,
representante da White Martins, ligando o presente ao passado.
Como dito, mesmo com a Kitnet e o
Dona Antônia funcionando no limite oriental da esplanada, já próximos ao Colégio
Estadual, não havia praticamente ninguém por ali, exceto alguns carros que
passavam em baixa velocidade. O trecho parece uma espécie de buraco negro naquela região
do centro de Garanhuns. Em virtude disso, é muito usado como sanitário informal
e afins por apressadinhos. Depois da análise comercial, o nível arquitetônico
foi minha segunda alternativa: vergalhões enferrujados apareciam em um ponto ou
outro, portas de fechaduras frouxas (algo bastante estranho levando que aquela
é a maior concentração de chaveiros por metro quadrado do interior de Pernambuco),
pintura descascada, reboco estambocado. Ao final da inspeção, encontrei, já na
Guadalajara propriamente dita, um catador de papelão, seu Biu. Ele tinha a carroça
de burro praticamente lotada. Me confidenciou que ainda naquela noite iria banhar
os papelões de água para que na hora da pesagem fosse beneficiado com um peso
maior do que o normal.
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Havia um poema na fachada lateral
do hotel. O título era: “Ser Silva”. A autora: Talita Kumi. Como se sabe, no
relato bíblico, especificamente no evangelho de Marcos, capítulo 5, narra-se a
história da filha de Jairo. Uma menina a quem Jesus ressuscita. Ao
fazer o milagre, o Cristo segura a mão da jovem e diz: “Talita Cumi” (quer
dizer: “Donzela, levanta-te”, em aramaico). Os pais de Talita batizaram a
filha, que mais tarde viria a ser poeta, com a transliteração pura e simples da
frase bíblica.
Eis o insight: “Ressurreição”. É
disso que o espaço precisa, diferente daqueles que acreditam que o melhor é
dinamitar o prédio para que os shows na Guadalajara sejam ainda mais grandiosos
(o que, diga-se, é contraproducente, pois descaracteriza a essência de festival,
este quanto mais pulverizado melhor). Uma ressurreição poética e cultural seria o destino
mais apropriado para o espaço. Algo que não seria necessariamente original, na
época em que ainda funcionava como rodoviária (1960-70), o prédio já servira de
ponto de encontro para os jovens garanhuenses que tinham ali a oportunidade de
ouvir boas músicas e arriscarem-se em suas próprias composições e
interpretações. Seria apenas um revival.
E otimizaria um corredor que poderia ser gigantesco no aspecto cultural: vindo
desde o Diocesano, passando pelo Mosteiro de São Bento, pelo Centro Cultural, pela
própria Guadalajara, o espaço apreciado nesse texto e, com boa vontade,
chegando ao parque Euclides Dourado.
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A “rodoviária velha” (como dito
acima, um cetáceo encalhado no coração cultural da cidade) obviamente não
presta.
Eu sou Mário. E esta é a minha cidade.
