Este espaço não seria reservado à Biblioteca
Pública Municipal Luiz Brasil, pois guardo dela as piores lembranças possíveis.
Como da vez que um livro de Augusto dos Anjos se despetalou, página por página,
na minha mão. Ou quando abri o livro do Augusto Frederico Schimdt e de dentro
dele saltaram espécies julgadas extintas dos mais perniciosos vírus da primeira
metade do século XX.
Parodiando Bob Dylan, não eram as respostas
que estavam no vento insalubre do local, eram bactérias.
Parodiando Bradock (não o personagem do
Chuck Norris, mas o amigo do jogador Romário), nem se eu tivesse dois pulmões
teria escapado ileso daquela fungada involuntária no livro do hoje esquecido poeta
carioca.
***
Feitas as ressalvas acima, o que me levou
a visitar a biblioteca do parque naquela quinta-feira foi a
nota solta pela Secretaria de Comunicação Social da Prefeitura de que o prédio
havia passado por uma criteriosa reforma que envolvera “limpeza do telhado,
colocação de telas de proteção para evitar ninhos de pombo...”
A tal nota foi reproduzida à exaustão
pelo pelos órgãos noticiosos da cidade. E este blog não poderia se furtar ao trabalho
de investigar in loco tais aprimoramentos.
Ao passar por baixo de um dos dois jambeiros
que antecedem o prédio da biblioteca, senti um déjavù.
Muitas vezes, no meu tempo de estudante
pobre, quando fazia uso daquele espaço – o que quase tirou minha saúde, como
dito anteriormente –, eu também fizera uso dos jambos ora pendidos ora dispostos pelo
chão cimentado à frente do prédio.
(O que acabo de dizer é uma falácia: “Estudante
pobre”, pois parece que não sou mais estudante e nem pobre: o que é um erro em
ambos os casos.)
A reforma tão propalada deve ter sido
feita exclusivamente no telhado, porque no minúsculo hall de entrada não havia
em essência mudança nenhuma, exceto uma nova disposição dos móveis.
Por uma abertura que lembra as cantinas
escolares, a simpática bibliotecária palitava os dentes e se dispôs a me
ajudar, se necessário.
Havia no espaço um único jovem, debruçado
sobre um volume de geografia, identificado pelo mapa da URSS, ao seu lado um
bloco de anotação. O garoto vestia uma camisa vermelha de uma das sapatarias do
Centro.
Aproximei-me e puxei conversa, baixinho,
mesmo sem justificativa, porque não havia nenhum outro usuário no recinto. “O
grande problema”, disse Uéscley Pereira Dias (sim, chequei a grafia), “é que
livro didático é caro. E estes estão totalmente desatualizados. O presidente do
Brasil ainda é Sarney e o governador é Arraes.”
Uéscley depois me esclareceria que estava
ali no seu horário de almoço. Como não tinha dinheiro e nem tempo, obrigava-se
a fazer uso daquele expediente. “Vou prestar Enem e UPE para Medicina”, ele me
disse, como se pedisse desculpa. “Tenho que correr atrás. Mas este ano eu não
vou tentar como cotista não. É pior.” Ele havia terminado ano passado seu
ensino médio numa escola pública da periferia, prestou seu primeiro vestibular
em 2012, mas não obteve sucesso. Se depender da biblioteca do parque...
A primeira biblioteca realmente pública
do Ocidente surgiu na Itália nos idos de 1604, La Angelica, em Roma, depois que
Angelo Rocca havia se disposto à organização do acervo livresco do convento de
Santo Agostinho. Por essa época, na Inglaterra, um ex-estudante
de Oxford, Thomas Bodley, resolveu fundar com esforços próprios a biblioteca da
instituição: fora ele quem lançara as bases para o que hoje chamamos de
Depósito Legal.
Por falar nisso, no Brasil, nossa primeira
biblioteca pública chegou com a família real, por volta de 1808, e se
estabeleceu especificamente em 1811. Embora o prédio e os alfarrábios tenham surgido,
parece que a cultura livresca não foi adequadamente adotada por nós. A ideia de
biblioteca é de um monte de livro acumulado.
Levantamo-nos da mesa de estudo, um tampo
cinza hexagonal, cercado por seis cadeiras de espaldares azuis, sob ela o
cheiro de chulé de frequentadores anteriores e sobre o tampo um leve fedor de
axilas.
Ao entrarmos em um dos corredores, Uéscley
disse: “Vou ver se acho um livro de biologia mais jovem que eu.” Tarefa difícil,
constatei. Há poucos volumes deste século, salvo engano. Uma dessas exceções são livros novíssimos
do criador da seita conhecida como Cientologia – seguida por estrelas de
Hollywood, como Tom Cruise e John Travolta. Existe uma dezena de coloridos
livros do autor L. Ron Hubbard.
Observei, por outro lado, na letra K, em
literatura estrangeira: havia apenas um surrado livro de Kafka, A metamorfose. Dos
próceres da atualidade (Cormac, Coetzee, Roth), nem sinal. Na hemeroteca, exemplares
de uma revista sensacionalista (“Incrível?”), de 1994; havia também revistas
Continente, o que me animou, até vislumbrar as datas: números de 2003, 2005. Observei
as enciclopédias; por suas lombadas, percebi: eram as mesmas de meu tempo de
menino – Lambada fazendo sucesso na Europa, Alemanha Oriental ruindo, Steffi Graf jogando
tênis...
“Por que não usa o acervo da sua
ex-escola?”, pergunto. Uéscley explica que o acesso à escola é restrito a alunos
matriculados, e levar livros para casa é um sonho irrealizável por lá. “Acham
que vou roubar”, ironizou o pré-vestibulando, “mal sabem os bibliotecários que
se eu fosse presidiário teria acesso ao livro que quisesse, totalmente de graça,
num ambiente silencioso e protegido por segurança 24 horas por dia, e bastaria
fazer uma resenha mensal que teria boa parte de minha pena reduzida. Num contexto
desses, quem vai roubar livro?” Ele havia feito recentemente uma redação sobre
o sistema carcerário no País daí a segurança em dissertar sobre o assunto.
(A biblioteca Luiz Brasil oferece a
possibilidade de empréstimo mediante um cadastro simples, mas a obsolescência
de boa parte do acervo desestimula esta opção.)
O recinto alternou, desde seu funcionamento
naquele local, momentos de popularidade e ostracismo. Em anos anteriores, criou
o projeto “Eu conto” onde atores amadores vivenciavam narrativas curtas de
escritores famosos do Brasil – mormente Monteiro Lobato –, e chegou-se a pensar
num ciclo de palestras com escritores da cidade que falariam para um público
infanto-juvenil acerca de suas obras ali no espaço da biblioteca. O projeto não
foi adiante, talvez pelo fato de simplesmente não haver por parte da prefeitura
a boa-vontade de adquirir os livros dos autores da cidades.
O estudante Uéscley sacou um tubo de
biscoitos recheados Traquinas de morango. A atendente nos convidou com o olhar a
sair do recinto enquanto comíamos. “Como não tenho muito tempo, se for almoçar,
perco a chance de estudar, tenho que comer por aqui.” Agora, não infringindo
nenhuma lei, nos sentamos num dos quatro bancos de madeira próximos à entrada.
O cenário que nos envolvia era dos mais interessantes.
Se a biblioteca perdeu o compasso do
tempo no que diz respeito ao seu acervo, e não serve para o estudo da geografia
e da biologia na teoria, na prática, ali é o local perfeito.
Pelos arredores, moderníssimos casais de
pré-adolescentes usam as paredes e suas reentrâncias (das paredes, é claro)
como cama vertical para negociar carícias das mais exacerbadas. Meninos e meninas matam aulas nos colégios
das redondezas – Henrique Dias, Dom Juvêncio Brito, IPH, São José – para
lustrarem as instalações do prédio central daquele parque. É, a biblioteca não
pode ser fechada por falta de uso, sobretudo o externo.
Após ser informado sobre o horário, Uéscley
mostra um ar de preocupação. São apenas dez minutos para chegar sem nenhum tipo
de atraso até o centro da cidade e à loja onde trabalha. O menino magro e
cabeçudo dirige-se à saída do parque Euclides Dourado, perdendo-se por entre os
eucaliptos ainda não arrancados.
Volto-me para a biblioteca do parque.
Poderia, graças à informática e ao atendimento que me pareceu satisfatório, ser
um excelente ponto de cultura, sobretudo nos fins de semana: mas obsoleta e defasada como ainda está, a
biblioteca Luiz Brasil não presta.
De longe, Uéscley Pereira Dias parece um
pêndulo invertido, equilibrando a custo a cabeçorra ingênua onde, além de tantos
sonhos, começa a guardar, com um invejável esforço, o conhecimento que no futuro
(assim eu creio, assim eu espero) salvará muitas vidas.
Eu sou Mário. E está é minha cidade.
