CAMPINHO DA LIBERDADE

O fato de o campo ser de barro e todo o seu entorno não contar com pavimentação não me desanimou. A garoa oblíqua e persistente também não era motivo de lástima. Afinal, fora em campos de lama e com chuvas constantes, lá na Grã-Bretanha, que viera à luz o mais popular de todos os esportes: o futebol.

A primeira providência que tomei ao chegar ao local foi fazer a aferição das medidas do Campinho da Liberdade, o Raposão, palco das apresentações do ínclito Internacional. Como não dispunha de trena, fiz a medição com a ajuda de meus passos, trocando cada um deles por aproximadamente um metro, cheguei à conclusão de que o tamanho se assemelha às medidas máximas exigidas pela FIFA em partidas internacionais, a saber: 75m de largura por 110m de comprimento.

Como a garoa inicial ameaçava tornar-se chuva, refugiei-me embaixo de uma árvore na ribanceira por trás de um dos gols (aquele voltado ao bairro de Heliópolis). Sentado em um dos dois bancos artesanais de concreto, assiste, numa espécie improvisada de camarote, à partida principal daquela manhã (sim, houvera antes a partida entre os aspirantes). Dois dos mais famosos times de pelada da cidade se digladiavam: Internacional da Liberdade x Cinco Estrelas do Indiano. Quem me esclareceu a identidade das equipes foi seu Cícero, morador da Liberdade desde a década de 1980.

Os primeiros movimentos dos jogadores mostraram a pouca capacidade técnica e a total ausência de tática entre as duas equipes. Mas um ponto de interesse, e que justificaria até um texto exclusivo, era o embate entre um atacante baixinho de pernas tortas (que não se sabe por que usava a camisa 3) e um zagueiro gordinho (a camisa deste deixava ver parte do bucho e o umbigo.) Também analisei os apetrechos esportivos dos atletas. Tal observação apenas corroborou uma das verdades básicas do futebol de várzea: quanto mais apetrechado é o jogador, menor é seu futebol. Os reservas de ambas as equipes ficavam à lateral do campo, à esquerda do meu ponto de vista, ou seja, o lado oposto ao Cemitério de São Cristóvão, que ocupa a quadra abaixo do campinho.

O frio persiste, mesmo assim compro um picolé de coco de um carrinho Iguapó (concorrente agressivo do picolé Caicó). Ofereço para seu Cícero uma daquelas guloseimas. De picolé às mãos, continuamos a apreciar o jogo. Pergunto por que o time do bairro se chama Internacional e sou esclarecido de que o Internacional (de Porto Alegre) na década de 1970 foi uma das potências do Brasil, ganhando com Falcão, Figueiroa e Carpegiani, nada menos do que três campeonatos brasileiros: o que o nacionalizou na questão torcida. Como já havia do outro lado da cidade o Flamengo da Matança, aquele homônimo gaúcho foi homenageado.

Os picolés são consumidos enquanto vibramos com a pressão do time da casa contra o visitante. A total falta de disposição tática (como já dito acima) colocava praticamente vinte e um jogadores na área do Cinco Estrelas, mas o goleiro (também barrigudo como o zagueiro) se superava numa série de defesas arrojadas, que, não obstante o campo fofo por causa da chuva, já lhe raspara o joelho esquerdo do qual filamentos de sangue escorriam manchando o meião supostamente branco.

A ideia de sangue sendo derramado me fez intercalar na conversa uma pergunta a seu Cícero sobre algo alheio ao futebol. Os famigerados canibais da Liberdade. “Nada mudou por aqui depois deles” – seu Cícero interrompe a si mesmo (“Olha o gol, olha o gol, olha o gol.” Alarme falso: goleiro espalma, bola bate na trave, vai a escanteio). “Era um povo estranho que veio morar aqui de uns tempos pra cá, não eram como nós, moradores antigos. Então não abalou a comunidade. Era um povo doido, que fez uns negócios doidos. E pronto. Um povo sem Deus no coração.”

Garanhuns, na verdade, sempre funcionou como uma espécie de para-raios de tragédias. Para ficarmos com apenas três: há a Hecatombe de 1917, a morte do Bispo Dom Expedito pelo padre Hosana e, finalmente, o acima aludido caso dos canibais. Este último chegando a dar fama inédita não só a Garanhuns mas especificamente ao bairro. Fama que extrapolou até mesmo os limites nacionais chegando à CNN, entre outros órgãos da imprensa internacional.



Nesse aspecto, é importante também citar a referência que Garanhuns recebe do maior escritor brasileiro. Assim escreveu, em Quincas Borba, Machado de Assis: “Ao café, pegou novamente na folha, para ler outras coisas, nomeações do governo, um assassinato em Garanhuns, meteorologia, até que a vista desastrada foi cair na notícia, e leu-a então com pausa.” Mais tarde, nosso maior poeta, Drummond, sentenciou: “Do fundo de Pernambuco, o pai mandou-lhe um telegrama... releu a data: 28 de setembro. Puxa vida, telegrama com a nota de urgente levar cinco dias de Garanhuns a Belo Horizonte!” Violência e atraso, rótulos dados pelos grandes literatos, e que aqueles atletas ali embaixo, no campo, corroboravam, mas estamos deixando isso para trás.

Com o final do primeiro tempo, desci a ribanceira até o campo de jogo. Muito antes dos tais estádios padrão FIFA, sem alambrado, fosso ou muro, o campinho da Liberdade já dava acesso livre aos torcedores, alguns assistem às partidas ladeando a faixa lateral do campo. Embora seja de barro, como todas as várzeas da cidade, aquele retângulo gigantesco guarda uma peculiaridade: o barro não chega a ser rochoso nem arenoso fica numa escala neutra quase fofa, o que permite que a bola corra sem necessariamente quicar. Além disso, a integridade física dos atletas também é protegida, já que com menos impacto os meniscos não sofrem tantas rupturas com em outras peladas. E sobretudo: o Raposão é um campo plano!

Embora atraindo tragédia, Garanhuns nunca foi atraída pelo futebol, o que é de se estranhar. Primeiro, pela quantidade de campinhos que nela existem; segundo, porque o futebol começou cedo por aqui. Já nas primeiras décadas do século XX foi formado um dos principais clubes da cidade, a AGA (Associação Garanhuense de Atletismo), fundada em 1930. A equipe teve seu auge em tempos relativamente recentes, chegando a ostentar o título simbólico de Campeão do Interior, ficando em quarto lugar no campeonato de 2003. O estádio Gérson Emery se tornara um caldeirão que impunha medo até mesmo aos chamados grandes da capital. Em 1950, surgiria, aos sete de setembro, o principal antípoda da AGA, o Sete de Setembro Esporte Clube. Logo, o Guará iria ser a grande ameaça da Lavandeira. O Sete também teve seus momentos de glória. Mandado jogos no estádio Marco Maciel, o Gigante do Agreste, chegou a pôr medo nos grandes. Infelizmente, hoje a AGA está num longo recesso (desde 2006) e o Sete luta para ascender à elite do futebol pernambucano, em 2014.

De volta ao meu assento, não numerado, mas privilegiado, por trás do gol, assisto às ações ofensivas do Internacional do outro lado do campo. O goleiro da equipe liberdadense, que mal trabalhara no primeiro tempo, também não trabalha na segunda etapa. Dá tempo, inclusive, de sair do campo, com a bola rolando, ir até um mototáxi que recém-chegara ao local, receber um dinheiro, colocar as cédulas no cós do calção de goleiro e voltar ao campo. Não tinha medo de perder o pagamento, pois não haveria ataque àquela meta durante o resto da partida.

“É muito bom ter esses jogos aqui, movimenta essas ruas nos dias de domingo”, diz seu Cícero. Realmente, agora que um sol tímido começa a surgir, as pessoas parecem mais animadas e começam a ocupar alguns bares nas proximidades do jogo e sons automotivos começam a funcionar. “Se tu fizer o teste, vai perceber que esse é o bairro mais animado de Garanhuns nos domingos.” Em pesquisas posteriores, constatei essa verdade. Exceto a região da Duque de Caxias, em virtude da feira livre, o que lhe tira da competição, são aquelas ruas ao redor do Campinho da Liberdade que guardam mais euforia em toda a cidade, de resto, morta.

Como este blog não se propõe a sensacionalismos baratos, esquivo-me de perguntar sobre os efeitos no bairro pós-canibalismo, desvalorização imobiliária entre eles. Pergunto se não há confusão, brigas, pois jogos tão disputados, torcidas tão próximas, juízes comprados... Seu Cícero garante que o policial militar que organiza o campinho não deixa que nada disso ocorra, e verdade seja dita: durante toda aquela manhã não houve nem um registro de desordem naquela arena.

O juiz era um caso à parte, apitava a partida com os trejeitos da Internacional Board (órgão responsável pela arbitragem na FIFA), porém estava descalço, de bermuda jeans e, completando o look, uma camisa do Corinthians (mais um caso de juiz ladrão). O fato é que o jogo, apesar da pressão do Internacional, acabou em zero a zero. Num dos últimos lances, o zagueiro gorducho de umbigo de fora deu uma chapoletada no driblador da camisa 3, as pernas tortas, à la Garrincha, paradoxalmente quase se endireitaram. Aprovei a truculência do zagueiro barrigudo.

Os jogadores se cumprimentaram no centro do Raposão ao término da peleja, enquanto eu dava as costas ao palco futebolístico. Repositório de lazer, diversão, entretenimento e esporte para aquela parte tão famosa e ainda assim esquecida da cidade, aquele campinho, em todos os sentidos, presta!

Eu sou Mário. E esta é a minha cidade.